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Há uma disputa política e muitas vezes ideológica pelas palavras e pelos discursos que, na maior parte do tempo, fica oculta. Para entendermos melhor essa disputa, comecemos por analisar o que o sociólogo Pierre Bourdieu define como campo e habitus.

O primeiro é o espaço de forças e de luta no qual agentes disputam poderes e capitais, sejam simbólicos ou específicos. Uma promoção, por exemplo, é um capital no campo corporativo, mesmo que ela não envolva diretamente um acréscimo financeiro, assim como uma titulação é um capital no campo acadêmico.

Já o habitus refere-se ao conhecimento adquirido pelo indivíduo e pelo grupo – ou membros de um campo, de maneira explícita ou implícita durante o tempo de exposição a um determinado campo. Portanto, somos capazes de distinguir um advogado de um jogador de futebol, mesmo que aquele não esteja em um fórum e este em um campo esportivo, pelo seu habitus, ou seja, sua atuação social, pela expressão estética e linguagem específica de cada um.

A estrutura do campo se compõe por dominantes, os que possuem o máximo de capital simbólico, e dominados, que padecem de sua falta ou escassez. Os integrantes desses polos opostos estão em constante luta por status dentro de seu campo de pertencimento. Dessa forma, nas disputas políticas pelos discursos, determinadas palavras não são capitalizadas e aceitas, assim como outras são impostas e repetidas à exaustão. Admitimos e validamos um discurso na medida em que reconhecemos e validamos o campo em que ele é empregado.

Reconhecemos, portanto, palavras como: indicadores, resultados, padrões, estatísticas, medições, informações, dados, pesquisa, como pertencentes ao campo científico e, como se trata de um campo cujo saber é tido como um “saber de excelência”, as palavras que orbitam em seu entorno são valorizadas e ganham status.

Ou seja, um argumento costuma ganhar força quando produzimos uma explicação utilizando expressões do campo acadêmico-científico, pois essas expressões costumam carregar o capital simbólico do campo de origem. O contrário também é verdadeiro e é sobre isso que gostaríamos de voltar nossa atenção.

Assim como existem campos que são extremamente valorizados, outros tantos são desqualificados. A filosofia, por exemplo, muitas vezes é vista pela ciência como uma disciplina isenta de “compromisso com a verdade” – frase que ouvimos recentemente de um doutorando em física. No campo acadêmico, as ciências ditas hard têm predominância sobre as ciências humanas. Além disso, frequentemente ouvimos nos meios corporativos, a palavra filosofar como sinônimo de “ir do nada ao lugar nenhum”. Dominantes e dominados.

Uma palavra que tem nos chamado a atenção nesse contexto é a palavra intuição. Pensamos que há uma disputa política que deve ser travada quando a usamos ou escolhemos não usar. Por se tratar de uma palavra que é muitas vezes utilizada em contextos espirituais ou para se referir a fenômenos transcendentes, ela é desqualificada e, não raro, associada às mulheres, ou melhor, ao campo do feminino, que tem sido historicamente o lugar dos dominados.

A intuição

[…] é uma compreensão global e completa de uma verdade, de um objeto, de um fato. Nela, de uma só vez, a razão capta todas as relações que constituem a realidade e a verdade da coisa intuída. É um ato intelectual de discernimento e compreensão. (CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2009. p. 64-65)

Mesmo que filosoficamente a intuição seja vista como um processo racional, usar a palavra intuição nos meios organizacionais é quase proibido, é “coisa de mulher”. O saber que reivindica para si a categoria de saber intuitivo tem sido discriminado e categoricamente excluído de quaisquer ambientes que pretendem reconhecimento.

Para nós, a intuição, por um lado, é a soma dos saberes incorporados que não podem ser direta ou explicitamente referenciados e mapeados – que podemos, então, relacionar diretamente com o habitus, e, por outro, é um saber sistêmico e global, que capta diversas relações complexas em uma realidade, objeto ou fato.

Vamos a um caso concreto dessa disputa política pelas palavras: ao olharmos com mais cautela para alguns espaços que excluem e desqualificam a palavra intuição e os saberes intuitivos, há, muitas vezes, a valorização da experiência de determinadas pessoas, isto é, uma pessoa que está a mais tempo exposta às relações, linguagem, processos e organização daquele espaço é valorizada. No entanto, raramente dizemos que essa pessoa é intuitiva ou tem uma boa intuição, mas sim que ela é experiente, mesmo não sabendo mapear e rastrear todo seu conhecimento adquirido ao longo do tempo ou explicitar o raciocínio usado para tomada de determinada decisão.

Na situação descrita, torna-se nítido que o uso da palavra intuição não tem status e nem é capitalizada pela maioria dos campos dominantes, mesmo que os processos intuitivos sejam utilizados diariamente e seus bons resultados sejam desejados. Quando usamos a intuição, é necessário ocultá-la e encontrar uma forma de justificar racionalmente as decisões e ações, sem explicitar que foram tomadas de forma intuitiva, sob risco de perder a seriedade ou de um bom resultado ser visto como um mero “ato de sorte”.

Nesse ponto, devemos retomar a questão do campo feminino que elucidamos acima: por conta de nossa construção social, muitas vezes as mulheres se deixam mais permeáveis às percepções e possibilidades da intuição, enquanto os homens se fecham um pouco mais a essa forma de discurso. Como, na atual luta pelos poderes e capitais, os homens encontram-se em posições dominantes, a intuição – enquanto saber e, principalmente, enquanto palavra – tem sido desqualificada e negada.

Acreditamos ser importante entrarmos juntos, homens e mulheres, nessa disputa política e lutar pelo uso da intuição, porque ela, enquanto saber sistêmico das múltiplas relações, pode contribuir muito nos processos decisórios e no empoderamento individual e coletivo; possibilitando o reconhecimento de outras expressões de saberes e capitalizando outros campos até então dominados.

Por Káritas Ribas