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Ao longo desses 6 últimos meses algumas pessoas me perguntaram sobre o que era este curso novo que eu fazia, o Grupoiesis. Todas as vezes eu tive dificuldade de explicar. Recorria ao objetivo macro que aparece no site “formação de facilitador de grupos” — ao que geralmente as pessoas respondiam um “ah tá” desinteressado. Quando queriam saber mais, perguntavam “mas você vai fazer o que com isso?”, ou então, resumiam “ah, então você tá aprendendo a fazer aquelas dinâmicas de grupo!”, “nossa, detesto dinâmica de grupo”. Sem graça, tentava argumentar com algum conteúdo teórico que tinha visto nas aulas, sem efeito. Eu não conseguia dizer sobre o curso estando no percurso, “grupada”, mas sabia que não era só para aprender a coordenar grupos.

Encerrado esse ciclo ontem (25/11), hoje já começam a vir notícias do que me atravessou na formação. O Grupoiesis, do Appana, ensina uma outra forma, acessa outra camada de aprendizado, pouco explorada no percurso de aprendizagem comum que fui treinada a seguir e/ou que me acostumei a gostar. O aprendizado do Grupoiesis NÃO começa pelo trajeto comum, mental, cognitivo — e percebo o quanto ativar mais essa camada me parece mais seguro, mesmo que seja mais ilusória e incompleta.

Não se aprende só com a cabeça, com o “cérebro”, forçando a atenção e a disposição do corpo para deixar a mente captar dados, informações que muito possivelmente ficam no depósito de memórias esquecidas.

Aprende-se com o corpo. Com os poros, com o suor, com as mãos, com os pés, com a voz, com o cheiro, com o embrulho no estômago. É um aprendizado que te seduz e te convoca à aceitação integral de si como verdadeiro “você” e do outro como verdadeiro outro (com sua luz, sua sombra e seus matizes). Um aprendizado que te pede atenção para a sua tensão e que te pede rendição. Renda-se ao que você já sabe, ao que você acha que sabe e principalmente ao que você não sabe.

O aprendizado pelo corpo acontece no campo da intimidade. Pelo medo e até preconceito de ativar esse campo em mim, muitas vezes me armei, tentei estar preparada, ficar firme, no controle das emoções e com a mente atenta para julgá-las e puni-las o tempo todo. Muitas vezes, fiquei calada me retesando, chorando por negar partes minhas que eu não conseguia dispor para o grupo para aprender. Autocontrolada, meu corpo doeu, muito.

Mas não foi assim para todo mundo, e também não foi assim pra mim o tempo todo. E é isso que o aprendizado pelo corpo desperta: a singularidade, a complexidade de cada um. Cada um viveu o processo de uma forma. Uma formação, muitas formações. Nos relatos e nas atividades, tivemos muitos momentos de conexão, de descontração, de atenção ao outro, de partilha de casos difíceis em grupos fora do nosso grupo, de teoria…

Hoje sinto que esta minha formação foi de maturidade. Reconheci estratégias (até infantis) que lanço mão para estar com determinados grupos. Maturidade de ir além do gosto x não gosto, de “é isso, então é aquilo”, escapar da causa-consequência para captar hipóteses. Sair dos binômios e entrar na complexidade só é possível pelo corpo.

Percebi que é na rendição e na disposição genuína que tenho a chance de captar aprendizados sutis, ver sincronicidades, conexões que já estavam lá, entrar no campo do que acontece, no presente.

Esta formação convoca a estar no presente, a vivenciar a impermanência de tudo: do grupo, dos afetos, das relações, dos papéis de cada membro. Grupoiesis apresenta a possibilidade de atuar como facilitador/a a serviço do grupo, não de conceitos abstratos, reconhecendo a necessidade de questionar o resultado esperado, de desconfiar de idealizações de seu trabalho e do grupo, enfim, a possibilidade de atuar sem ser o/a “deus/a” do grupo.

No Grupoiesis o autoconhecimento acontece pelo grupo-conhecimento.

Hoje vejo o/a facilitador/a de grupos como alguém presente, com bagagem de vida, de teorias e metodologias. Não como um operador de atividades de grupo. Alguém com olhar treinado para o que acontece, para as interações entre as pessoas e consigo. Metaforicamente, é como um pescador que enxerga o encontro de águas horizontais (coletivas) e verticais (individuais) e escolhe para que lado vai lançar seu anzol a partir de hipóteses sobre a temperatura e o movimento das águas e o tipo de isca que vai atrair o peixe que está submerso. É um pescador que sabe que tem dias que vai dar peixe e tem dias que vai dar caldo e se move de acordo com o que acontece.

Depois de estar “grupada” por 6 meses, oscilando nos papéis de peixe, isca, barco, água, me movo em direção ao papel de pescadora grupoiética, agora pra facilitar grupos.

 

Originalmente publicado em medium.com/@carolmessias em 29 de novembro de 2018.