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Eu tive, por muito tempo. A primeira vez que tive contato com o conceito de crenças como um conjunto de convicções pessoais que podiam ou me fortalecer, por meio de comportamentos e ações positivas, ou me limitar, me impedindo de viver o meu máximo potencial, eu senti o peso e o poder de carregá-las e a dúvida sobre quais eram boas e quais eram ruins. Senti que estava no papel de manipuladora da minha própria vida a partir de um conjunto de pressupostos que fui criando e guardando no meu subconsciente – deixa a crença me levar, crença leva eu – e que era a única responsável por nutri-las ou mudá-las.

O medo aumentou quando percebi que as pessoas que tiveram contato com esse mesmo aprendizado sobre crenças automaticamente se transformaram em “fiscais” das crenças próprias e alheias. Não consegue mudar? Não atinge determinado resultado? Não consegue promoção/emprego/vender em época de crise? Isso é crença limitante! Ao contrário, pra você parece que tudo flui, dá certo e sempre aparecem as melhores oportunidades? São suas crenças fortalecedoras! E o remédio pra crença limitante era reconhecê-la, entendê-la e eliminá-la. Você também poderia substituir eliminar por destruir, vencer, combater, ou qualquer verbo que prefira usar com um vilão.

Pode até ser didático (pedagógico) pensar sobre crenças com base nesse binômio causa-consequência, dor-prazer, ruim-bom, porém, saindo da teoria, caímos nos terrenos das incertezas, do caos e da complexidade. E esses terrenos complexos são justamente o nosso corpo, nossos pensamentos e emoções, nossas relações e nosso contexto, o mundo. É aí que percebemos que existem crenças que não são nem limitante, nem fortalecedoras; outras que são limitantes em um contexto e fortalecedoras em outros; e outras ainda que são, ao mesmo tempo, limitantes e fortalecedores.

A crença está no campo da complexidade, ou seja, do que está “entrelaçado”, “tecido junto”, do que se “desdobra”, como indicam suas raízes latinas complexus e plicare. Quando entramos nesse terreno, podemos ver que a crença faz parte de um sistema e que não importa a quantidade de elementos (“objetos”, “pontos”, “fatos”) que existam nesse sistema, mas as relações que se estabelecem entre essas coisas. Entendendo a crença como interligação entre elementos, torna-se inviável investigar os elementos separadamente, ou conectados linearmente, como “pensamento gera sentimento, que gera ação, que gera comportamento”. Essa equação compreendida linearmente recai no solipsismo, ou seja, acreditar que além de nós só existem nossas experiências, um idealismo de si perigoso que pode se transformar num egoísmo pragmático fantasiado de “autorresponsabilidade” e nos cegar para as relações sistêmicas e os paradoxos que estão tecidos junto conosco e com nossas crenças.

Como podemos pensar crenças no terreno da complexidade? Se tudo o que é dito é dito por um observador, como afirma Maturana, podemos investigar os modos de ver do outro, suas experiências e distinções produzidas por cada uma delas. Podemos parar de querer encontrar e remover a peça limitante do quebra-cabeça de si e do outro, já que o sistema de crenças não tem esse formato. Podemos questionar o discurso da crença e o modo de existência que dá suporte a esse discurso. Podemos ver que as crenças suportam e possibilitam coisas.

E foi quando entendi que crenças são conclusões repetitivas que sustentam a minha estrutura, deixei de temê-las e passei a provocá-las e a entendê-las como parte da minha estrutura. E eu só posso fazer coisas a partir dessa estrutura.

por Carolina Messias
Um ser letral, pesquisadora de processos de escrita, mestre em Literatura e coach com formação comportamental e ontológica. Reúne suas paixões por Comunicação Autoral e Desenvolvimento Humano na Incipit Hub.

Referências bibliográficas
Mariotti, H. Who is afraid of Complexity? Publicado em 21-6-2015. Disponível em: <https://www.linkedin.com/pulse/who-afraid-complexity-humberto-mariotti?trk=portfolio_article-card_title>
______. O que é complexidade? Publicado em 3-4-2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ouhHQoWKdXI>
Maturana, H. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: UFMG, 2014.